Sobre viagens, companhias e mulheres de bicicletas

Depois de uma viagem marota no final do ano passado até Friburgo (em algum momento vamos postar as descobertas e os perrengues), a vontade de pedalar continuava. “A gente pedalou pouco.” “Também acho.” “Vamos para Região dos Lagos?” “Quando? Só falo uma coisa: só pedalo de manhã e de noite. XD“. Mas como a falta de sintonia, já comentada na última postagem, continuava, Marcus acabou partindo sozinho. Quase que simultaneamente à sua partida acessei o blog Espaços Invisíveis e li uma postagem que fala sobre companhia para viagens, onde a ciclista/autora escreve a partir de sua inesperada pedalada sozinha por conta de uma parceria de viagem que não deu certo. Depois da leitura fiquei pensando e aqui estou tentando organizar esses pensamentos.

Marcus sempre comenta que aprendeu em sua primeira viagem de bike a importância do trajeto e não do destino em uma experiência dessas. Se a sua pedalada não for solitária, a sua relação com sua companhia de pedal será crucial para um trajeto proveitoso. Coisas simples como cantar Dance of Days juntxs, compartilhar o olhar de maravilhamento ao se deparar com um lagarto imenso na RJ-122 e rir de piadinhas anti-carro tornam a viagem muito mais agradável.

Sem a companhia dele a possibilidade de realizar outra viagem de bike antes das férias acabarem parecem muito distantes. Não me sinto nem um pouco segura de andar sozinha por estradas que não conheço ou que são muito distantes. Não falo do receio de um acidente ou algo parecido, tenho medo de assaltos e de algum tipo de violência sexual. Na última viagem encontramos várias vezes ciclistas homens sozinhos nas estradas, nenhuma mulher. Isso parece ser um dado significativo. Algumas discussões sérias sobre assédio, mulheres e bike na internet como aqui e aqui nos fazem ver como esse é um problema generalizado e constante.

Como pegar a bike sozinha não se apresentava como opção, passei a considerar a possibilidade de arrumar uma companhia através da afinidade mais evidente: a vontade de viajar de bicicleta. Pesquisando aqui, pesquisando ali e até agora nenhuma possibilidade concreta.

Sim, a ideia é encontrá-lo na Região dos lagos.

– Lucília

Gambiarras e alternativas: o que funcionou nessa viagem

Como vocês já devem ter percebido no post sobre os alforges e no post sobre o que levar em uma viagem de bicicleta procuramos alternativas mais baratas e tentamos produzir nós mesm@s algumas coisas. Fazemos isso porque, além de não termos muita grana, acreditamos que temos que nos apropriar do processo de feitura das coisas e além disso tentamos transformar esse processo num ciclo. Se você não tem esse hábito, dificilmente conseguirá identificar coisas que podem virar outras coisas ao seu redor. Comece a montar um kit de costura e vá enchendo aos poucos com os botões daquela roupa que já  não serve nem para pano de chão, com o pedaço daquela blusa que rasgou… e você começará a perceber como coisas podem virar outras coisas. As gambiarras e alternativas que usamos na viagem foram:

– Confeccionamos nossos ALFORGES: Os alforges funcionaram super bem. Tivemos alguns probleminhas que foram facilmente resolvidos: 1- Colocamos um saco de lixo grande dentro de cada alforge para evitar que as coisas molhassem quando pegasse chuva. 2- Cicloninha colocou as coisas mais pesadas do alforge para frente, isso fez com que o alforge parasse de entrar na roda. 3- Cicloninho amarrou os alforges com barbante puxando-os para trás, isso impediu que continuassem batendo no pedal. 4- Utilizar velcro para fechar o alforge não foi uma boa alternativa, pois ele soltava. Se não fosse o saco de lixo no alforge da Cicloninha, as coisas iriam ter ficado expostas o tempo todo. O Ernesto dá umas dicas aqui.

Etaflon funcionando como bom isolante térmico quando dormimos em frente da UPA em Rio Bonito (spoiler do relato da volta)

Etaflon funcionando como bom isolante térmico quando dormimos em frente da UPA em Rio Bonito (spoiler do relato da volta)

– Compramos etaflon aluminizado ao invés do ISOLANTE TÉRMICO tradicional: Fazendo uma rápida pesquisa na internet, descobre-se logo que o isolante térmico para colocar no fundo da barraca é essencial. Achamos um pouco caro (acho que gastaríamos uns 60 reais em média) e fomos pesquisar alternativas. Na internet, encontramos algumas dicas e acabamos indo parar em uma dessas lojas de plástico do centro do Rio de Janeiro. Lá fomos vendo e analisando vários materiais. Palmilha, carpete, placa de EVA, peleja, até que a vendedora indicou etaflon, quando vimos o que era identificamos na hora que era a manta de polietileno (aquele material usado pra fazer “macarrão” de piscina), que havia sido indicada por algumas pessoas nas internetz. Compramos 2,00×1,20 de etaflon aluminizado com 2mm de espessura e 2,00X1,20 de etaflon normal com 8mm de espessura. Saiu tudo por menos de 30 reais e funcionou muito bem. Essa manta gera mais volume do que o isolante tradicional, mas é muito leve. Ainda não sabemos o quanto ela dura.

– Fizemos FITAS ANTI-FURO: As fitas anti-furo caseiras são feitas com tiras de garrafa pet e fita adesiva (silver tape). Cicloninho há um tempo atrás havia feito para os pneus da sua speed . Acabou não dando muito certo, mas ele utiliza, sem problemas, essa mesma fita na bicicleta “rabugento” (a bicicleta que tem todas as folgas do mundo e “reclama” muito). Cicloninha resolveu fazer para a viagem. Mas as fitas acabaram se partindo nas emendas, pois na hora de emendar as tiras de garrafa pet, Cicloninha colocou uma de frente para outra e não uma sobre a outra (maneira como Cicloninho fez as suas). Acreditamos que essas fitas que causaram os furos nas câmaras de ar dos dois pneus da Cicloninha.

Situação da fita anti-furo que foi se desfazendo (a qualidade da silver tape pode ter influenciado também)

Situação da fita anti-furo que foi se desfazendo (a qualidade da silver tape pode ter influenciado também)

– Confeccionamos CARTUCHEIRAS: Um cinto de utilidades no maior estilo Bátima, para que fique sempre ao alcance da mão coisas que você deseja ter em fácil acesso. A Cicloninha pegou uma cartucheira emprestada, com dois bolsos, um em cada lateral do corpo; Cicloninho fez uma a partir de uma “cintura” de calça jeans velha, aproveitou um bolso da calça e colocou na cartucheira pra levar a carteira, fez um bolsinho pequeno bem na frente pra levar o canivete suíço (que foi bem útil em vários momentos), um bolso logo ao lado para o celular e um bolso do outro lado para qualquer outra coisa, que acabou servindo para levar bananadas e outras pequenas coisas pelo caminho

Alforge que não fechava e bolsinha de hidratação

Alforge que não fechava e bolsinha de hidratação (acho que dá para ver…)

– Improvisamos uma MOCHILA DE HIDRATAÇÃO: Para auxiliar na dificuldade de Cicloninha em beber água com a bicicleta em movimento, Cicloninho pegou uma garrafa mineral pequena, fez um furo na tampa e colocou um pedaço de garrote (liga, goma… depende do lugar que você mora); e emprestou uma bolsinha também confeccionada por ele para que a garrafinha pudesse ficar ali dentro. A ideia era, depois de pendurada a bolsa no corpo com a garrafinha dentro, passar o garrote po trás do pescoço, prendê-lo em algum lugar do capacete ou roupapara que o garrote chegasse facilmente na boca. Deu (mais ou menos) certo. O gosto de borracha era forte e a Cicloninha sempre esquecia de prender o garrote.

Recentemente recebemos uma crítica por fazermos “gambiarras” em um grupo sobre Viagens de Bicicleta no Facebook:

Comentário sobre este blog e nossa proposta

Comentário sobre este blog e nossa proposta

A pessoa retirou seu comentário, por isso postamos o print da página aqui. Só não temos o segundo comentário que a pessoa fez, no qual diz que a sua crítica foi porque a bicicleta é algo que precisa seguir algumas normas de segurança, como os carros. Talvez a pessoa tenha mudado de ideia e por isso retirou os comentários, vai saber…

O que acham disso? Se vocês já tiveram experiências, boas ou ruins, com gambiarras e alternativas contem pra gente nos comentários!

– Cicloninh@s

Uma pedalada esperada até Aldeia Velha

Há muito tempo @s Cicloninh@s pensavam em fazer uma viagem de bicicleta junt@s, mas sempre tinha algum problema, muitas vezes possivelmente falta de organização e preguiça, que nos impedia. Nesse final de ano, com o término da graduação da Cicloninha, vimos a oportunidade aparecer novamente, e decidimos não deixar ela passar. Queríamos pedalar, mas não sabíamos para onde, e Aldeia Velha apareceu como ótimo local por vários fatores, entre eles: ser relativamente longe, proporcionando um bom pedal; o Honesto já ter ido duas vezes pra lá de bike e ter relatado uma delas no seu blog; ser um local calmo, tranquilo e longe do “circuitão de férias”; termos achado um local barato e legal para ficar.

O plano era ir daqui de casa a casa do padrinho do Cicloninho, em Magé (aproximadamente uns 30km), para economizar essa uma hora e meia de pedalada, render mais o tempo de pedalando sem sol, coisas assim. Só que no dia em que planejamos sair, estava chovendo muito, fomos então fazendo o “confere” da checklist; comprando as últimas coisas e providenciando os arremates necessários. No dia seguinte o tempo parecia melhor, mas logo começou a chover e o desânimo já começava a bater: “Será que não vamos conseguir fazer essa viagem?” O plano era: “Se não estiver chovendo às 17h, vamos até Magé. Chegamos lá por volta de 19h e dormimos por volta das 21h. Acordamos 2h para sair às 3h. Paramos em Rio Bonito (metade do caminho) às 9h, descansamos, conhecemos a cidade e voltamos a pedalar às 16h para conseguir chegar em Aldeia Velha às 22h.” Primeiro contratempo: estava chovendo às 17h. Pensa. Para. Reflete. Ajeita mais uma coisa. Preguiça. Olha no Climatempo. Uma ideia: “Está com cara que a chuva vai parar. Podemos sair às 19h, para chegar em Magé às 21h, ir dormir e continuar com o plano de viagem.” E nessa de esperar a chuva passar, fomos arrumando as bikes devagar.

O céu estava nublado, carregado de nuvens na hora que saímos em direção à Magé. Logo no primeiro quilômetro, Cicloninho reclamava dos alforges batendo no calcanhar e os meus entraram um pouco na roda. Com uma rápida parada conseguimos resolver estes problemas. A pedalada foi muito tranquila na maior parte do trajeto. Era noite, o ar estava fresco e a noite agradável. Tivemos que parar algumas vezes para colocar a corrente na coroa da minha bicicleta (mais um capítulo da novela do passador dianteiro) e uma ou duas vezes em subidas que, como diria o Cicloninho, a Cicloninha arregou. A parte mais tensa foi pegar um trecho da BR 493 que é escuro e esburacado (na verdade, essa BR tem só um trecho iluminado, em frente ao Corpo de Bombeiros). Pegamos chuva nos últimos 4 ou 5 quilômetros. Chegamos, tomamos banho, comemos nosso miojo e fomos dormir. Mas às 3h da manhã quando o relógio despertou, outro contratempo (na verdade era o mesmo): estava caindo um toró! Decidimos voltar à dormir e ver o que faríamos pela manhã. Às 7h da manhã ainda chovia muito. Lá pelas 9 e pouca a chuva estiou. Pensa. Para. Reflete. “Quer voltar?”. Olha no climatempo. “Vamos?”

Chuva na maior parte do caminho no primeiro dia

Chuva na maior parte do caminho no primeiro dia

Saímos às 10:55. Depois de 5 minutos de pedalada, já chovia bastante, mas continuamos. Ainda no trecho Magé-Manilha, indo em direção à BR 101, o pneu traseiro da Cicloninha furou. Não esperávamos que acontecesse tão rápido, mas pensamos: “Acontece.” Depois, já na BR 101, mais precisamente no Viaduto de Duques, foi a vez do pneu traseiro do Cicloninho furar, ou melhor, rasgar (É impressionante a quantidade de coisas no acostamento prontas para furar os pneus das bicicletas). Aproveitamos para fazer nosso almoço e nisso encontramos um “trecheiro”. Estava vindo de São Paulo, sem freio (o_o), talvez fosse para Macaé. Aproveitamos a parada e torcemos um pouco das roupas encharcadas, fizemos um arroz com lentilha (usando uma espiriteira a álcool) somente com água e sal e ficou, surpreendentemente, gostoso. Cicloninho remendou a camâra de ar e depois seguimos viagem.

Nosso primeiro almoço na estrada: arroz com lentilha

Nosso primeiro almoço na estrada: arroz com lentilha

Pneu rasgado

Pneu rasgado

Em Tanguá, a Cicloninha estava bem cansada e já começávamos a pensar em algum lugar para dormir. Perguntamos em um posto de gasolina quanto faltava para Rio Bonito –  Ao ouvir 12 km trocamos olhares e a Cicloninha disse que dava pra chegar. O pneu traseiro da bicicleta estava um pouco baixo. “Será que furou novamente!?!?” Enchemos o pneu e fomos. Já bem perto da entrada de Rio Bonito o pneu arriou de vez. Solução: empurrar a bicicleta. Passando pela frente da UPA 24h de Rio Bonito, um cara nos abordou super empolgado, falou que também andava de bicicleta, fez algumas perguntas e nos indicou um hotel “baratinho” no centro de Rio Bonito (entre aspas porque não achamos tão barato assim quando chegamos lá). Uma outra opção era tentar ficar em uma igreja católica pois essas igrejas geralmente possuem um quarto e abrigam viajantes. Mas nos indicaram uma igreja que parecia não ser católica e que no momento acontecia alguma atividade. Resumindo: fomos para o hotel. Lá, aproveitamos para lavar umas peças de roupa na pia do banheiro. Estendemos um varal improvisado atravessando o quarto para que as roupas pudessem secar. A diária valia atá às 12h do dia seguinte, assim o plano era simples: Desceríamos para o café da manhã às 8h, por volta de 11h desceríamos novamente para começar arrumar as bicicletas e conseguir sair 12h. Mas quando fomos colocar a roda da bicicleta da Cicloninha no lugar (havíamos levado a roda para o quarto para fazer o remendo lá) vimos que o pneu da bicicleta do Cicloninho muito rasgado, não dava pra seguir daquele jeito. Mudança de planos: sair para procurar uma loja de bicicletas para comprar um pneu novo (“Será que vai ter pneu para speed?”) e câmaras de ar extras para as duas bicicletas. Cicloninho foi nessa missão e a Cicloninha ficou no hotel adiantando as coisas, e quando ela vai colocar os alforges na sua bicicleta se depara com mais uma surpresa desagradável, o pneu dianteiro estava bem vazio. Por via das dúvidas ela retirou a fita anti-furo caseira que havia feito, pois desconfiávamos que ela pudesse estar causando furos; o Cicloninho acha que foi uma coisa específica na feitura da fita que ocasionou isso, pois ele tem uma fita antifuro caseira em um bike, com um pneu carequinha, e não dá problemas.

Açaí em Rio Bonito

Açaí em Rio Bonito

Tudo resolvido. Fomos procurar alguma coisa para comer. Tomamos um açaí de 500 ml cada um, com muito amendoim e rosquinhas para acompanhar. Estávamos  apreensivos com a possibilidade de mais furações de pneu mas seguimos em direção à Aldeia Velha. Iríamos voltar para BR 101 por onde havíamos entrado em Rio Bonito, mas por indicação da moça do Açaí fomos em outra direção, na qual pegaríamos a BR 101 bem mais na frente. Teria sido uma boa opção, se esse caminho não fosse 90% feito de paralelepípedo; mas, ao menos, passamos da entrada da Via Lagos. Esse trecho da BR era muito mais tranquilo e bonito do que o que já havíamos percorrido – pouco volume de carrros, algumas cadeias de morros. Como problema pouco é bobagem, logo nos primeiros KM nessa volta à BR, o Cicloninho percebeu que o pneu novo estava com uma deformação, causando um “ovo” inconveniente no pneu, mas preferiu continuar assim do que voltar em Rio Bonito para tentar trocar o pneu, em um sábado onde as coisas já poderiam ter fechado. Depois de pouco mais de 2h pedalando, fizemos uma parada. Como estava muito quente, não tínhamos vontade de comer comida/fazer o almoço. Procuramos, mas como era de se esperar de uma lanchonete chamada “Queijão”, não encontramos algo vegan e/ou barato. Uma coisa que comprovamos nessa viagem foi que bicicletas atraem pessoas legais. Nessa parada nossas bicicletas nos permitiram conhecer o Eduardo e a Patrícia de Rio das Ostras, que andam de bike também e pilham em cicloturismo, estavam inclusive indo trabalhar na Copa América (que nós não fazemos idéia do que seja  XD) – dêem uma conferida no blog deles. Foi bom conversar com eles!

Eduardo: cicloturista de Rio das Ostras

Eduardo: cicloturista de Rio das Ostras

Apropriação de um coco.

Apropriação de um coco.

Umas pedaladas depois notamos que o pneu da bicicleta do Cicloninho estava meio vazio, e além disso, algum tempo depois a roda começou a bambear. “Era só o que faltava… o eixo quebrar.” Para. Tira alforge. Pensa. Mexe. Se apropria de um coco da fazenda que paramos em frente. Coloca alforge. Volta a pedalar. Mais a roda continuou bamba. Ainda faltavam uns 10 km mais ou menos até o quilômero 215 da BR 101, ponto onde fica a entrada para Aldeia velha. Depois de lá ainda seriam mais 8 km de estrada de chão até Aldeia Velha. Cicloninho estava MUITO irritado. Queria que a Cicloninha fosse na frente e ele “se virava”, mas ela não queria ir na frente. Tentou pedalar mais um pouco. “É, realmente não dá.” Tentou encher o pneu pra ver se dava pra pedalar mais e eis que… Cicloninho percebe que havia esquecido de apertar o pino da válvula (presta) da câmara de ar e por isso ela estava esvaziando, e, consequentemente, como era um pneu 700X20 vazio, dava essa impressão de eixo quebrado – pedalar com peças que você não está acostumad@ cria essas dificuldades. Problema resolvido: Só felicidade! Ainda estava claro quando chegamos na entrada para Aldeia velha, foi escurecendo no caminho. Quando chegamos no centro da cidade, fomos perguntar onde ficava a Fazenda Bom Retiro para umas pessoas que estavam na frente de um bar. Uma delas perguntou espantada: “Vocês vieram de bicicleta lá da entrada?” E eis que aumentamos seu espanto quando respondemos: “Estamos vindo de Caxias, no Rio de Janeiro.” Depois de mais ou menos um quilômetro chegamos na Reserva Bom Retiro.

Entrada de Aldeia Velha

Entrada de Aldeia Velha

Estamos preparando o relato da nossa estadia e da nossa volta. É que a viagem trouxe muitas ideias e empolgações, então estamos tendo que dividir nosso tempo com construções de forno solar, visitas a amigos etc.

– Cicloninh@s

Treino do Foreveraloninho e coisas pelo caminho

Ontem, véspera de natal (24/12/2012), tive mais uma desculpa para pedalar pela Avenida Brasil, mas desta vez no sentido contrário – Vila Valqueire (que, segundo a Bironca, fica a uma hora e meia do Rio de Janeiro – piadinha de família para dizer que é longe, #maseuri). Meu pai viria até a casa da minha tia para passar o natal, e eu precisava acertar uma coisa de trabalho com ele, além de querer ver minha irmã e meu irmão um pouquinho. Eu tive que fazer esse treino sozinho, pois a Cicloninha não quis ir… Como @s cariocas sabem, dia 24 estava um calor digno do Hell de Janeiro, o sol nos proporcionando quanta síntese de vitamina D fóssemos capazes de fazer, nenhuma nuvem no céu pra dar uma esperança; assim sendo, decidi esperar dar uma amenizada para sair, pois o sol está se pondo lá pras quase-oito. Fui me preparando aos poucos durante o dia, pois ainda tinha que resolver a coisa do pedal da minha bicicleta (tinha que trocar e o parafuso não saía nem a pau, soldou de ferrugem – ficaadica, sempre limpem a bike depois de uma chuva ou mesmo de uso constante, e coloquem uma gotinha de óleo em cada rosca que encontrarem), colocar o ciclocomputador no lugar (que deve estar com o cabo partido, pois ligou mas não marcou nada – é um saco contar com uma coisa e não tê-la), arrumar as coisas de trabalho que eu tinha que levar. Uma coisa estava me preocupando (e ainda está): desde a janta do dia anterior que eu não estava me sentindo bem, logo depois de jantar (nada anormal – lentilha, macarrão e proteína de soja) me senti empanzinado, e nem tinha comido muito; depois, quando fui beber água (sempre com um mínimo de uma hora após as refeições), senti uma dor no estômago, igual a quando bebemos água em jejum. Fiquei ontem sentindo essa sensação o dia todo, consegui comer muito pouco e toda vez que ia beber água sentia essa dor – o resultado foi uma má alimentação e pouca hidratação, nesse calor de nãotenhovontadedeviver. Mesmo com esse mal-estar decidi ir de bike, pois acho que ninguém deve poder nos dizer que não conseguimos fazer alguma coisa, principalmente nós mesm@s.

Saí de casa 19:23, pedalando um pouco mais devagar do que gostaria, por conta desse mal-estar mencionado. A Washington Luís estava tranquilíssima, o fluxo de carros estava mínimo, então segui sem problemas até a Av. Brasil. Ao entrar na Brasil, a mesma tranquilidade, as pessoas realmente ficam em suas casas para o natal. O sentido Zona Oeste da Av. Brasil, depois da Washington Luís, é um pouco pior, menos conservado, e isso sempre dificulta a pedalada, principalmente em uma speed, onde você sente qualquer pedrinha no chão – isso NÃO É exagero. Foi a primeira vez que fui de bike até a casa da minha tia sem entrar por Madureira, que era o caminho que sempre fiz, por ficar na cabeça que Vila Valqueire fica dentro de Madureira (afinal, sempre peguei o ônibus Petrópolis – Madureira para ir pra lá, então na minha cabeça de besta-espacial, ficou essa associação). Mas dessa vez fui pelo caminho que as pessoas fazem de carro, que é passar pela Brasil da entrada de Madureira e entrar mais à frente, acho que é a entrada para Deodoro, é ao lado do Corpo de Bombeiros – inclusive, aquele retorno em paralelepípedos complicou um pouco a minha vida.

Xópis fechado no natal

Isso é um absurdo contra o natal!

Reparando algumas coisas nesse trajeto acabei pensando, refletindo, e percebi que o verdadeiro espírito natalino está morrendo – a coisa de verdade, sem todas essas frescuras e mentiras que colocam em cima. Passando pela Washington Luís, fiquei impressionado ao ver um templo novo, grande, fechado – afinal, muitas pessoas chamam o dia 24 já de natal, então acho estranho um templo fechado logo nesse dia, onde as pessoas tem mais motivos do que no resto do ano para ir aos templos. Na Avenida Brasil, altura de Guadalupe, a mesma cena se repetiu, com um templo ainda maior – passei por um templo antes desse que também parecia fechado, mas esse era um pouco mais distante e não posso dizer com certeza. Como assim shopping centers fechados na véspera do natal?! Aonde essas pessoas estão com a cabeça?! E o direito das pessoas de viver o espírito natalino, de fazer suas compras de última hora, de sentir os prazeres e maravilhas que só o consumo puro e simples pode proporcionar? Não sou adivinho, mas tenho certeza que Papai Noel ficou muito #xatiado com essa situação – tsc, tsc, tsc…

Eu tinha pensado em ir e voltar na mesma noite, tanto pelas coisas que eu tenho que fazer (dou aula amanhã às 08:00 e ainda não terminei o planejamento, por exemplo) quanto pelo treino (que aí seriam os quase 39km de ida mais 39 de volta, totalizando uma pedalada de 78km, um treino bom), parar uma ou duas horas por lá e voltar. Mas o mal-estar persistente, as conversas com as pessoas e a Lívia e o Daniel (minha irmã de 7 anos e meu irmão de 3) acabaram me fazendo desistir – o Daniel com meu capacete estava hilário, e pela situação estar boa nem lembrei de tirar uma foto (“tentando apriosionar momentos eu esqueço de vivê-los”; isso é da Vivenciar, não é?). Passei a noite lá, e o sol de hoje não me deixou vir logo cedo – peguei no pedal 18:20. A volta foi bem tranquila também, mesmo que as pistas estivessem com mais movimentação. Como ainda estava com o mal-estar (tem gente dizendo que isso pode ser gastrite, preciso averiguar isso), embora incomodando menos do que na ida, pedalei num ritmo interessante (como o ciclo computador não estava funcionando não posso dizer a velocidade, mas eu estava pedalando a uma volta por segundo no “penúltimo pinhão”) mas sem pressa. O bom de pedalar sozinh@ é que você faz seu ritmo, decide seu trajeto, suas paradas; o ruim, principalmente para alguém vacinad@ com agulha de vitrola como eu, é que a cabeça fica funcionando e você não tem ninguém pra falar alguma coisa – e quando a gente está com algum problema na cabeça, tempo vago é tudo que esse problema quer pra dominar nossos pensamentos. Tirando um imbecil que colocou a cabeça pra fora e gritou “Malucoooo!!!” em uma agulha perto do Carrefour da Washington Luís, foi uma pedalada bem tranquila, mas queria falar de algumas situações do caminho, algumas que só pude viver por entender que de bicicleta, o caminho faz parte da viagem, não é simplesmente um empecilho como quando vamos de automóvel (e isso eu aprendi com o Honesto quando fomos para Rio das Ostras).

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Água fresca, mas de origem desconhecida

Umas das vezes em que estava voltando do trabalho, na ponte (acho que é sobre o rio Suruí) logo depois do Feirão das Malhas, vi um cara tomando banho com uma água aparentemente potável – digo isso pois a água daquele rio é podre, cheira a óleo, provavelmente consequência de muitas irresponsabilidades somadas e de uma refinaria de petróleo logo ali… Fiquei na cabeça que ou ali embaixo da ponte tinha uma fonte de água não-poluída-bizarramente ou o cara tinha levado a água até ali de balde, e eu queria dar uma conferida nisso. Quando passei ali com a Cicloninha, no nosso primeiro treino, decidi não parar; mas hoje eu parei e, confirmando minha hipótese, lá estava um cano jorrando água transparente (em contraste com a água cor de óleo queimado do rio) em abundância, junto com embalagens de sabonete, um vidro de perfume e uma barbeador usado (é, parece que o lugar é usado mesmo para tomar banho). Eu, que cresci tomando água da torneira, tratei de beber um pouco, pois ainda na Av. Brasil a água que eu tinha levado já estava quente, e a água que saia do cano não tinha nenhum gosto estranho; se eu morrer de algum verme bizarro, já sabem. Usei a água também pra jogar no corpo, pois ela estava bem fresca.

Mais na frente, um caminhão de bombeiros estava parado no acostamento, e logo vi que a parte de mato na beira da estrada, altura da Reduc, estava com um incêndio bem grande. Teve uma parte que eu passei por dentro da fumaça, e o dia escureceu! Eu sei que o tempo estava muito quente e seco, já tem uns dias que não chove e tudo o mais, mas não consigo tirar da cabeça que aquilo não foi causado só pelas condições climáticas. Só o fato de estar na área da Reduc já mostrava que pode ter algum vazamento de coisas inflamáveis por ali – se bobear aquele rio de que falei pega fogo com um fósforo. As pessoas tem a mentalidade de fazer queimadas para lidar com o mato de forma mais simples e barata, pois vivemos numa sociedade do “fodam-se as consequências pras outras pessoas e pro mundo” – isso me fez lembrar que vi uma pessoa colocando fogo no mato ao lado do Carrefour da Washington Luís quando estava indo e fiquei com uma vontade de voltar e falar algumas merdas com a pessoa, tentar apagar o fogo que estava começando, mas como hoje em dia qualquer coisa é motivo de morte, deixei passar. No dia do treino com a Cicloninha, vimos uma capivara enorme um ou dois quilômetros à frente (e hoje vi outra – ou seria a mesma? – no mesmo local  =D), o que aponta que esses animais vivem por aqueles matos, quantos não devem ter morrido nesse incêndio? É foda ver essas coisas e não poder fazer nada…

Carlos e Cicloninho

Carlos e Cicloninho

Logo depois do incêndio, no ponto de ônibus antes do retorno da Reduc, passei e fiz um aceno de cabeça para um cara que estava ali, ao que ele me respondeu “Feliz natal”, e eu disse “Pra você também”. Ao passar dele percebi que ele estava de muletas, provavelmente estava esperando um ônibus que deixasse ele entrar pra pedir alguma ajuda, e como hoje em dia simpatia é algo raro (olá, cara-do-carro-carmin-que-me-xingou), voltei pra tirar uma foto e falar com o cara. O nome dele é Carlos, ele trabalha mas realmente estava ali pra pedir uma ajuda dentro do ônibus, e fiquei uma meia hora conversando com o figura – falamos do quanto as pessoas estão impessoais atualmente, de computador, de como dá pra fazer um mundo melhor se ganharmos na mega sena da virada, de justiça, de casa bagunçada (tamo junto, Carlos). Quando eu pedi pra tirar uma foto com ele e disse que era pra colocar no blog que eu estava fazendo sobre minhas pedaladas, ele pediu pra dizer que as pessoas julgam muito quem tem uma deficiência, seja física ou mental, mas que não conhecem quem realmente é aquela pessoa, não sabem quais as dificuldades que a pessoa tem que enfrentar todo dia.

Quando saí de Vila Valqueire, vi que o Wally (lembram dele, de outro post?) tinha me ligado, e decidi passar na casa dele, ficar só uns 5 minutos pra saber o motivo da ligação, falar uma pouca coisa e vir pra casa, pois mesmo não sendo o Lula Molusco eu tenho que terminar meus afazeres. Quando entrei na rua que ele mora, ele estava na porta da casa da tia dele, com sua mãe, seu pai, outras pessoas da família, incluindo o Marcelo. Os 5 minutos foram apenas uma ilusão, devo ter ficado lá conversando com o Wally e com o Marcelo por meia hora, quando finalmente tomei coragem de interromper uma boa conversa para vir pra casa.

Espero que esse post ajude as pessoas a entender duas idéias: 1 – Ninguém deve te dizer que você não pode fazer alguma coisa, principalmente você – e isso não é lema pra impressionar não, é meta de buscar se conhecer e saber diferenciar quando você realmente não é capaz de algo e quando a coisa é apenas difícil. 2 – O caminho é parte da viagem, principalmente de bicicleta; se não estão com hora marcada, esqueçam a idéia de ir do ponto A ao ponto B, esqueçam as linhas retas, pensem em múltiplas possibilidades, pensem que a menor distância entre dois pontos é aquela que é mais agradável de percorrer.

– Cicloninho

O primeiro treino foi frustrado

Anteontem a Cicloninha conseguiu pegar a bicicleta dela do conserto; infelizmente, isso só provou mais uma vez que nós temos que saber consertar as nossas bicicletas, principalmente porque a mecânica de bikes não é algo muito complicado – o básico dá pra fazer com qualquer conjunto simples de ferramentas, em lojas de bicicleta até vendem canivetes com um jogo de chaves para a bike. A marcha não foi satisfatoriamente regulada (o câmbio dianteiro não está levando para a coroa menor, e ao passar para a coroa maior a corrente está saindo – sabemos como resolver isso, mas quando deixamos a bicicleta para regular, no mínimo ela tem que voltar regulada), e como tivemos que tirar o pneu dianteiro (vocês saberão o motivo), ao recolocá-lo percebemos que o freio dianteiro também não está devidamente ajustado. Realmente tenho saudades da época que moramos no Rio Comprido e eu levava a bike no Chico, pagava uns R$30,00 e ela voltava toda reguladinha, redondinha…

Combinamos, então, de fazer um treino, pois o dia da viagem está chegando e tanto ela quanto eu temos que nos preparar, fazer algumas pedaladas mais extensas que as do dia-a-dia e com mais ritmo, tentar manter cadência, encarar estradas, fazer treino com peso na bicicleta (eu só descobri como faz uma diferença brutal ter alforges com bagagem na bicicleta quando efetivamente usei), essas coisas. A gente pensou em ir até o Caxias Shopping e voltar, pois seria uma boa pedalada (uns 36km ida-e-volta) e não exigiria maiores preparos do que poderíamos fazer em relação ao tempo de que dispunhamos (já havíamos perdido alguma parte do dia esperando a bicicleta dela ficar pronta); viemos aqui em casa, coloquei a bermuda de ciclista, capacete, peguei as ferramentas, bomba e câmara reserva, e fomos para a casa dela, para ela pegar o capacete e colocar um tênis. Mas, ao chegar na rua onde ela mora, o pneu dianteiro dela furou…

Empurramos até a casa dela, e então começamos o primeiro remendo da vida dela. Ela encostou a bicicleta, soltou a roda dianteira, tentou tirar sem soltar o freio e se enrolou, esvaziou o pneu, pegou as espátulas, tirou um lado do pneu, tirou a câmara de ar, encheu, achou o furo, lixou, aplicou cola, cortou um pedaço do remendo, esperou a cola secar, colou o remendo, ficamos na dúvida se tinha colado no lugar certo, encheu, viu que tinha colocado certo, colocou a câmara de volta no pneu, montou a roda. Quando finalmente colocou a roda na bicicleta, ainda tínhamos esperança de conseguir fazer um treino, talvez uma pedalada menor; mas ao colocar a roda, vimos que o freio dianteiro estava pegando no pneu, e partimos para tentar solucionar isso. Solta sapata, posiciona sapata, aperta o freio, mede, aperta sapata, vê que não adiantou, solta sapata, aperta sapata, nada ainda, regula parafuso, quase lá, recebe ligação importante, tem que sair logo, deixa o freio solto pois vai pertinho.

Primeiro remendo da cicloninha

Primeiro remendo da cicloninha

Bom, nessa segunda maratona de manutenção (a primeira foi antes dela levar a bicicleta no mecânico) esgotou-se nosso tempo e possibilidade de fazer o treino… A necessidade de trabalhar e outros probleminhas impediram de fazer esse treino ontem, mas hoje finalmente conseguimos fazer nosso primeiro treino! Ainda não escrevemos o relato pois chegamos cansad@s e ainda vamos fazer o primeiro teste com a barraca, mas devemos escrever amanhã e tentar postar aqui no blog.

– Cicloninho

Nota

Olá,

A idéia desse blog nasce da vontade de compartilhar com todas e todos a quem possa interessar a experiência da nossa primeira viagem de bicicleta junt@s, desde os primeiros preparativos até a experiência da volta. Obviamente pretendemos não nos limitar a isso e falar por aqui um pouco de tudo o que nos interessa: bicicletas, veganismo, ideais libertários, agroecologia, permacultura, faça-você-mesm@, livros…

Esperamos que esse blog seja uma ferramenta para divulgar nossas idéias e compartilhar momentos com outras pessoas!

Abraçoninhos,

Cicloninho =]

Projeto Cicloninh@s