Bicicletada de fevereiro (22/02/2013)

Estava eu ocupado com a elaboração dos meus planos de aula para a semana seguinte, quando abro meu email do BOL (que não abria ha uns dois dias) e sou recebido com a simpática quantidade de 74 emails não-lidos; ao dar uma olhadela rápida, constatei que a esmagadora maioria era da lista da bicicletada. Minha experiência me diz que quando há essa quantidade de emails, geralmente é por um assunto trivial, onde muitas pessoas respondem com coisas como “ok”, “estarei lá”, “comofaz?” e tentativas de participar de qualquer tópico, mesmo que nunca vá na bicicletada. Meu comportamento costumeiro nessas situações é ler o primeiro email do tópico, se interessar vou lendo o resto, se interessar um pouquinho de nada leio o último também, se não interessar simplesmente apago todos os emails daquele tópico. Só olhando os assutos dos emails me toquei que a bicicletada seria no dia seguinte, o que seria ótimo, pois estou indo de bike para o trabalho e isso facilitaria bastante o ânimo; mas vi algo que me preocupou, pois um tópico noticiava a morte de um ciclista, atropelado em Botafogo. Ao ir lendo os emails soube que se tratava de Fábio Muniz, 44 anos, escalador quatro vezes campeão brasileiro; o mais preocupante, até então, era que a grande mídia já estava divulgando que “a polícia afirmou que o motorista não teve culpa” – várias pessoas questionavam que investigação havia sido feita para chegar a essa conclusão, em tão pouco tempo. Um pouco sobre Fábio pode ser visto aqui.

Diante dessa situação, surgiu uma mobilização para instalar uma Ghost Bike – uma bike toda pintada de branco é colocada próxima ao local onde uma/um ciclista foi atropelad@, como forma de homenagem e memória,algo parecido com as cruzes colocadas em beira de estradas. Amig@s escaladorxs do Fábio se mobilizaram e conseguiram uma bike, pintaram e se prontificaram a instalá-la no local.

Bicicletada saindo da concentração rumo a Botafogo

Saí do trabalho por volta das 18:30, chegando na concentração da bicicleta umas 19-e-alguma-coisa; logo vi o Honesto (fácil, dado o contexto, foi só procurar aonde estavam sendo feitas as faixas e stêncils) e parei pra trocar uma idéia. A bicicletada estava com muito mais pessoas do que o comum, da mesma forma que aconteceu em outra situação onde ciclistas foram atropelad@s – é uma infelicidade enorme que as pessoas só compareçam nessas situações. Mas uma coisa nessa bicicletada foi muito poderosa enquanto exemplo: o consenso, mesmo em grupos grandes, sem líderes e heterogêneo É POSSÍVEL; ali, havia um motivo forte e evidente (na minha opinião de merda) para que o trajeto fosse para Botafogo, mas a estrutura da nossa bicicleta é de decidir o trajeto na hora, com toda e qualquer pessoa tendo direito a voz, mas ninguém apareceu com outra proposta, bastou um objetivo comum e conseguimos unir uma boa quantidade de pessoas (50? 70? 100?!) em um mesmo propósito, sem necessidade de líderes, votações, maiorias ou patrões – essa, alcatéia de reaças, vocês vão ter que engolir.

O caminho se deu sem grandes complicações até o local aproximado do atropelamento, em frente à Casa&Vídeo da praia de Botafogo. Enquanto o pessoal trocava da direita para a esquerda da pista, pois iríamos prender a Ghost Bike no canteiro central, fizemos uma pequena rolha (quando algumas pessoas param as bikes de forma a impedir o trânsito e garantir a segurança da bicicletada), travando as duas faixas da esquerda. Quando achei que estava tudo de boa ouço uma discussão, e vejo que tem um motoqueiro discutindo com o Jayme (“discussão” e “Jayme” cada vez mais me parecem sinônimos – e isso é ótimo), então volto já ligando a câmera, e nisso um motoboy do Bob’s, que já estava na frente da rolha, volta para dar o seu depoimento sobre o atropelamento, alegando tê-lo visto. O vídeo pode ser visto aqui. Enquanto @s amig@s escaladorxs do Fábio se organizavam para colocar a Ghost Bike no alto de um poste, uma galera fez uma rolha travando as duas faixas da esquerda, pois a quantidade de ciclistas era grande e queríamos garantir a segurança. Depois de um tempo dois policiais militares começaram a passar por perto da galera da rolha, estávamos com umas bikes viradas e segurando faixas; como “cicloninho escaldado tem medo de puliça”, peguei a câmera e tentei filmar o nome dos policiais, sem muito sucesso – mas eles também nem falaram nada conosco. Algum tempo depois que um policial veio mais agressivo “pedindo” para ocuparmos apenas uma faixa, e tivemos que ceder à gentileza do rapaz. Depois da Ghost Bike fixada no alto do poste (como comentei com o Honesto, se não houvesse ninguém do rolê escalada entre nós, mal conseguiríamos prender a ghost bike acima da cabeça) sob muitos aplausos, começei a ouvir um tumulto perto do poste e fui ver o que era. Havia uma viatura da polícia militar estacionada, dois policiais, um deles com uma prancheta, e a galera gritando “Eu também quero assinar!”, “Ou assina todo mundo ou não assina ninguém”, e logo entendi que os policiais estavam querendo anotar nome e número de documentos de alguém, prática padrão quando há esse tipo de manifestação e abordagem. Achei muito foda a atuação da galera, colocando em prática o princípio da horizontalidade que baliza a bicicletada – tod@s concordavam com o evento e com o que estava acontecendo, não existiam líderes, logo não fazia sentido somente uma pessoa fornecer seus dados. Mas, infelizmente, a cultura da representatividade ainda nos permeia de forma grudenda e subreptícia, e uma pessoa, com a melhor das boas intenções sem sombra de dúvidas, foi contra o coro da galera e forneceu seus dados para o policial; achei isso ainda mais problemático pois a polícia, até onde sei, não havia detido ou ameaçado prender ninguém, apenas disse “só saio daqui com os dados de alguém”, como uma criança birrenta – por mim, a gente seguia a bicicletada e deixava ele lá, esperando alguém fornecer os dados até hoje.

Depois disso, a bicicletada seguiria até a 10ª DP (Botafogo) tentar dialogar com a Delegada titular para saber a quantas andava o processo, a investigação e essas coisas. Mas, ao atravessar a pista, para seguir pela direita até a delegacia, um motorista avançou o carro contra as pessoas que faziam a rolha, atropelando e machucando um rapaz; isso foi suficiente para elevar os ânimos, principalmente de um rapaz que já estava exaltado desde a concentração, se dizia amigo do Fábio e estava o tempo todo gritando contra os carrose e jogando coisas na rua para impedir o trânsito – cada pessoa lida com suas dores de alguma forma, não foi um amigo meu que morreu então não me sinto muito apto a julgar a pessoa. Como eu ainda estava chegando, demorei pegando minha bike que ficou virada fazendo a rolha lá atrás, quando cheguei só vi algumas pessoas golpeando o capô do carro e a lateral do carro (algumas com as mãos, outras com as bikes), e muitas outras tentando evitar a confusão – de quem eu sei nomear, vi o Naldinho (cuja tranquilidade foi essencial nesse momento) e o Jayme. O resultado foi que o psicopata armado ficou com o carro amassado, os policiais que ainda estavam por ali vieram interceder, houve algum diálogo mas as pessoas preferiram seguir com a bicicletada; minha pulga atrás da orelha com a polícia me fez ficar no local para ver como seria a ação deles, e me surpreenderam positivamente pelo modo como agiram (com as expectativas baixas em relação à polícia, claro, isso não quer dizer muita coisa, mas ao menos recorreram primeiramente ao diálogo e não ao spray de pimenta, empurrões e cacetetes, como minha memória não se cansa de me lembrar), responderam minhas dúvidas sobre como o rapaz atropelado deveria proceder e aparentemente fizeram o que deveria ser legalmente feito em relação ao assassinorista. Dali, segui com mais duas ou três pessoas que ficaram para a delegacia.

Quando cheguei, a coisa já tinha “se consolidado”, pois a delegada não estava e só ela poderia disponibilizar informações sobre as questões relativas ao atropelamento. De lá, uma galera seguiu para a praia do Leme, para o aniversário de um ciclista, e nesse trajeto pude trocar uma idéia interessantíssima com a Bibi sobre bicicletas, principalmente sobre fixas – o resultado dessa conversa, somada a muitas outras coisas, vocês devem ver logo logo aqui pelo blog.

Acredito que é isso, ao menos da minha memória e do meu ponto de vista. Que parem os atropelamentos e que venham as próximas bicicletadas, cada vez mais combativas e recheadas de pessoinhas “sinistras e interessantes” (entendedorxs entenderão).

=D

A primeira Bicicletada carioca de 2013

Ontem, sexta-feira dia 25-01-2013, vi pelos emails da lista da Bicicletada que aquela era a última sexta-feira do mês, logo teria bicicletada; passar quase a semana toda em casa, entre o computador e a construção de um forno solar foi o principal motivo que me fez querer ir. Comecei a me preparar ainda pela manhã, fazendo as coisas devagar, e assim fui vendo o que precisava; a primeira coisa era comprar um pneu novo, pois o que estava na bicicleta era o que rasgou na viagem, e obviamente precisava ser trocado. Comprei um CST (um chinês-qualquer-coisa) 700×23 por R$32,90 em uma loja aqui perto mesmo, o que acabou com o dinheiro que eu tinha na carteira – na verdade, me deixou com R$2,00. Cheguei em casa e fui trocar o pneu, pensei que talvez fosse melhor colocar o pneu novo na roda traseira, mas o trabalho de tirar os dois pneus me fez optar por trocar só o dianteiro mesmo. Depois fui dar uma olhada nas ferramentas, aproveitei pra dar uma ajustada na altura do selim (que estava levemente alto) e prender melhor a trim-trim no guidão e o pisca no capacete. Tomei um banho, tasquei vaselina entre as pernas (e, dessa vez, pude nitidamente perceber que faz uma considerável diferença), coloquei a roupa, cartucheira com carteira, celular e canivete suíço, prendi a bolsa de ferramentas no bagageiro com um extensor e fui embora – saí de casa exatamente 16:55.

O começo da pedalada foi tranquilo, eu estava empolgado e pedalando bem rápido, o que me faz sentir muito bem. Mas com menos de vinte minutos de pedal a minha condromalácia patelar mostrou que está em mim pra ficar, e meu joelho esquerdo começou a doer h-o-r-r-o-r-e-s – eu não iria conseguir chegar em lugar nenhum com aquela dor miserável, dessa vez veio bem mais rápido e muito mais forte do que da vez indo para Rio das Ostras. Eu já estava determinado a pegar o retorno do Reduc, alguns km à frente, e voltar pra casa, dolorido e frustrado, mas a dor simplesmente começou a desaparecer – aproveitei pra “dar um gás” novamente, o que foi muito bom para o ânimo. A desgraçada do dor voltou, mas aí ela me pegou mais combativo, e eu decidi que iria chegar na bicicleta, dor nenhuma iria me impedir – tinha o detalhe de ter que voltar, mas optei por não pensar nisso, uma coisa de cada vez. A dor foi me acompanhando, intermitentemente, o caminho todo; eu desci a Rio Branco já “mancando” de dor, tava foda, mas eu consegui chegar. Vi uma pessoa lá em frente ao Odeon que muito provavelmente estava lá para a Bicicletada, e fui em sua direção; sim, estava lá para juntar-se à pedalada, e seu nome era Marco (pela forma como ele pronunciou, acredito que essa é a grafia, mas eu bem sei como esse mundo de Marco/Marcos/Marcus é complicado…  XD). Logo depois chegou o Jaime, uma menina que esqueci o nome, um cara numa dobrável, e assim a bicicletada foi enchendo de pessoas e pedais; foi muito PHoDa ver o Honesto chegando de bigode, e melhor ainda ouvir ele dizendo que só mandou o bigode porque não anda de fixa, senão já era demais. Fiquei incomodado de ver a galera bebendo cerveja, algumas pessoas duas, três latinhas; não me parece sensato dizer que pedalar pela Brasil é perigoso e optar por pedalar no Centro sob influência do álcool – deu uma saudadinha da época que podíamos brincar e chamar de xBicicletadax (entendedorxs entenderão). Conforme foi escurecendo as pessoas começaram a se juntar e tentar decidir um trajeto, de uma forma mais-ou-menos coletiva (algumas pessoas centralizaram a discussão, acho que poderia ter sido evitado com um pouco mais de cuidado), e a decisão foi de irmos até o Cais do Porto e depois voltar pela Av. Passos, parando ali em frente ao Odeon novamente.Aí teve um momento que eu desgostei, que foi a galera posando pra foto do Globo, parece que uma repórter que está escrevendo sobre mobilidade urbana acompanhou a bicicletada e tinha a pessoinhas das fotos também; tentei ficar de costas na hora das fotos, mas acho que teve uma que me pegou bem de frente – isso, em si, não é lá grande problema (ou é, não parei pra avaliar melhor ainda), mas tenho críticas à relação da grande mídia com os movimentos sociais. Esse tipo de reportagem, onde a galera é só cenário, ninguém efetivamente entrevistou a bicicletada e tal, acho evidentemente escrota – vou tentar desenvolver isso melhor em outra oportunidade. Eu fui o caminho todo trocando idéia com o Honesto, e foi uma pedalada curta, mas como eu não prestei muita atenção por conta da conversa, não tenho muito a dizer – pra mim, foi extremamente agradável pedalar e conversar com o Honestino, que eu não via há algum tempo. Em algum momento do trajeto as pessoas decidiram ir para a Pedra do Sal, aí mudamos alguma coisa no trajeto, achamos uma faixa compartilhada que liga nada a lugar nenhum (o que não é novidade do Rio), e chegamos; eu achei desagradável, estava um barulho alto e muita gente, coisas que eu velhamente não aprecio. Troquei idéia com algumas pessoas, depois Ana, Honesto e eu partimos pra encontrar uma galera e ir pra casa do Honesto, onde passei a noite rindo, vendo vídeos, discutindo coisas como “estrogonofe é ou não uma vitamina de carne?” e ouvindo pessoas esperarem eu dormir para falarem da minha tatuagem.

A volta foi bem tranquila, fui até a Lapa pedalando com o Honesto, ele tinha que passar em umas lojas de ferramentas pra comprar coisas para repintar pela terceira vez a bike dele, pois a pintura que ele fez não ficou boa, daí ele levou pra um cara “”profissional”” pintar e a tinta saía de passar a unha. O joelho deu uma incomodada logo que saimos da casa do Honesto, mas de resto não deu sinal de que ia implicar não; agora está doendo, estou dando umas mancadinhas pra andar, mas por experiência sei que amanhã vai estar tudo novo.

E aí galera, partiu bonde da baixada pra bicicletada todo mês?

=D