Uma pedalada inesperada pela Avenida Brasil

Hoje, por conta de uma complicada conversa e da necessidade de planejar minha aula, não consegui dormir, e tive que vir “virado” para o trabalho. Quando o celular tocou, às cinco da manhã, finalizei o que estava escrevendo, desliguei o computador, tomei banho, me arrumei e sai de casa ainda comendo pão e tomando suco de maça com soja. Quem mora pela Baixada sabe como é complicado a coisa de condução aqui, principalmente para ir para o Centro; eu mesmo pego o engarrafamento da Washington Luís E o da Avenida Brasil, além de depender de uma única empresa displicente que faz o trajeto. Assim, fui caminhando em direção ao bairro vizinho, para pegar o ônibus no ponto final e, quem sabe, conseguir ir sentado.

Cheguei no ponto por volta das 05:40, e uma fila colossal me encarava, desafiadora. Alguns minutos depois, um ônibus parou, por sorte era Avenida Brasil (poderia ser Seletiva ou Linha Vermelha) e algumas pessoas desistiram, formando imediatamente outra fila. Feliz com a rapidez e a possibilidade de ir sentado, quando aproximo meu cartão do validador – pééiinn -, saldo insuficiente. O desânimo tomou conta de mim, tentei mais uma vez, na vã esperança que fosse um erro da máquina – não era. Como eu não tinha dinheiro nenhum comigo, só me restava voltar para casa, e no caminho vários pensamentos foram me ocorrendo, muitos no sentido de “não vai dar tempo, agora vou pegar mais engarrafamento ainda, nãovaidartempo”. E então, eis que o óbvio me ocorre: eu poderia ir de bicicleta! Claro, com a viagem se aproximando, eu uniria o útil (treinar e chegar menos atrasado) ao agradável (pedalar). Assim, cheguei em casa, tirei algumas coisas da mochila, coloquei a bermuda de ciclista e uma camisa de naylon (está certa a grafia?), coloquei a roupa de trabalho na mochila, juntei algumas ferramentas, coloquei capacete, peguei tranca e apito, e fui, sem pensar muito.

Saí de casa exatamente às 06:23. Em dois ou três minutos já estava pedalando na Washington Luís, e não via a hora de encontrar o engarrafamento, para ter a sensação boa de “vocês não estão pres@s no trânsito – vocês SÃO o trânsito”. Mas a preocupação com o horário me fez puxar um pouco o ritmo, e a ansiedade fez da minha cabeça um local hostil, com pensamentos chatos – resolvi contar as pedaladas para higienizar a cabeça, e cheguei a 700 e poucas. Quando cheguei na altura da Reduc, tinha um ou mais pneus destruídos na pista lateral, o que me fez pensar no quanto o automóvel é, realmente, um problemão – não que fosse uma reflexão nova, mas qualquer coisa pra ocupar a cabeça ajudava. O engarrafamento estava lá me esperando, na altura do jornal O Globo; como @s motorist@s são incentivad@s a pensar só em si, obviamente o acostamento estava impedido, e os carros fazendo besteiras eram bem comuns. Fui costurando no meio daquele caos, que sumiu por alguns metros depois da divisão Av. Brasil – Linha Vermelha, mas voltou com força na Cidade Alta. Já fui esperando a péssima entrada para a Brasil vinda da Washington Luís, com quase um quilômetro de placas de concreto (eu acho) mal colocadas, que fazem sofrer qualquer pessoa em uma speed – mas esse trecho ganhou um asfalto que eliminou isso, fazendo essa entrada muito melhor.

A Av. Brasil espanta muita gente, coloca medo em tantas outras, mas nunca me causou mais que tédio (a coisa de não ter no que pensar) e irritação (o combate com @s motorist@s, principalmente de ônibus – e @s taxistas, que sei lá porque sempre me importunaram por ali). Olhei o relógio quando entrei na Brasil, e ainda eram sete e poucas, então fiquei mais tranquilo; mas as condições da Brasil e meu ânimo da pedalada me fizeram continuar o trabalho de alfaiate. Nada muito notável na Brasil, nenhuma grande dificuldade. O mais impressionante, algo que eu queria muito que acontecesse mas não apostaria minhas fichas, foi que eu PASSEI O ÔNIBUS QUE EU HAVIA PERDIDO. Ou seja, eu perdi o ônibus por volta de 05:45, andei até minha casa (uns vinte minutos), me arrumei e saí por volta das 06:23, e mesmo assim consegui passar o ônibus. A certeza de que era ele está principalmente em algo que me chamou a atenção quando o vi parado: na lateral, estava escrito “Magé – Petrópolis”; a isso se somou o formato “velho” do ônibus e o letreiro. Cheguei tranquilo no trabalho, consegui tomar uma chuveirada (pena que não trouxe toalha nem sabonete) e sobrou tempo – se o clima permitir, amanhã repito a dose, de bobear com fotos e vídeos!

Ou seja, cheguei mais cedo no trabalho, sem o mau-humor e cansaço do trânsito dentro do ônibus, mais disposto e ainda fiz um exercício! Não preciso de um Desafio Modal pra saber: bicicleta é o melhor meio de transporte no meio urbano!

– Cicloninho

P.S.: Como Murphy olha por mim, provavelmente a volta aguardará surpresas malignas =D

Anúncios

9 comentários em “Uma pedalada inesperada pela Avenida Brasil

  1. Não tenha invejinha – se inspire e faça! Você pode, eu tenho certeza (aliás, pensei em você o tempo todo na ida de hoje).
    O relato da volta está online já, aproveite =D

  2. maravilha seu relato Marcus! tempos atrás também quis me aventurar pela Av.Brasil, meu destino era São João de Meriti, mas, várias pessoas me desaconselharam…acabei indo de ônibus mesmo…olhando pela janela, procurando alguém de bicicleta rsrs

  3. Obrigado, Tati! Como eu tentei mostrar, embora a Av. Brasil não seja um mar de rosas, ela também não é um bicho de sete cabeças; na próxima vez, vá de bike e compartilhe sua experiência com a gente!
    =D

  4. Gostaria mesmo de concordar que a bicicleta é uma alternativa para quem mora na Baixada, mas acho que se vc fizesse o trajeto com uma máscara branca chegaria ao destino com uma máscara preta, no mínimo bem cinza. Tem tantas linhas de ônibus e vans de Piabetá pra Central que se os veículos fossem vendidos comprariam uns 30 vagões desses trens chineses que a SuperVia comprou recentemente para a capital.
    No sexta, pegando o Piabetá na Brasil meu ônibus encontrou com um ciclista andando no acostamento. Não sei o que o ciclista fez ou falou, mas fez com que o motorista abrisse a porta e perguntasse: “Você está todo certo, né, amigo?” Depois fechou a porta aos xingamentos do ciclista e jogou o ônibus para cima do acostamento para intimidá-lo.

  5. Se o argumento é poluição, Marlon, pode tirando a bicicleta da garagem: cito aqui um trecho de um estudo apresentado no XIII Simpósio Luso-Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental (que você pode ver na íntegra em http://lcqar.ufsc.br/adm/publicacoes/VI-042.pdf):

    “O nível de exposição ao dióxido de carbono dentro de veículos e ônibus em diversas rotas na região de Florianópolis (SC) durante o verão de 2007/2008 foi avaliado. As concentrações de CO2 mantiveram-se abaixo do limite preconizado pela resolução RE no 9 da ANVISA (BRASIL, 2003) nos casos em que se utiliza ventilação natural por janelas abertas em carros e veículos”

    Ou seja, se as janelas ficam fechadas, a qualidade do ar se torna pior – entre outros fatores, o estudo aponta a quantidade de pessoas dentro do mesmo veículo como determinante nessa equação.

    O trânsito na cidade, assim como tantos outros problemas atuais, não é algo pontual ou mesmo um problema em si – é fruto de uma crise de percepção (Capra que o diga). Se continuarmos a acreditar que a solução é mais tecnologia e não uma outra visão, vamos insistir no problema.

    Espero te ver de máscara e bike pela Av. Brasil =D

  6. A impressão q eu tenho é que o esforço necessário para percorrer distâncias assim demandam do organismo muito mais oxigênio, logo, provavelmente tb assimila muito mais partículas poluentes que uma pessoa em repouso.
    Essa crise de percepção aqui na Baixada é anterior à questão do transporte, pois por muito tempo, e acho q ainda hoje, a condição de cidades dormitórios ainda é aceita. Além disso vimos o sucateamento de um tipo de transporte q era muito mais abrangente e eficiente em detrimento da expansão da malha rodoviária.

  7. Acredito que as pessoas envolvidas nas pesquisas que citei são mais gabaritadas do que eu e você para falar sobre essa questão específica – o que não anula nossas opiniões, com certeza. Mas acho que temos que pensar na saúde de uma forma global, não apenas focar na coisa da respiração/poluição – de bike você faz exercício e reduz o stress, acho que só isso já pesa na balança pro lado do pedal.
    A crise de percepção de que falei vai além dessas questões, tem que ver com o paradigma que temos sobre o mundo. Mas realmente, a expansão da malha rodoviária é um problema grave, vivemos em uma sociedade do automóvel – e acredito que, não tendo a opção de vivermos em comunidades mais orgânicas e coesas, a bicicleta se apresenta como ferramenta de mudança, ao contrário do ônibus, que só reforça a visão problemática
    =D

Comente aê =D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s